
Hoje estou inspirada, procurando minhas receitas de saladinha, encontrei essa que é pra dias em que o estômago pede sustança, como dizia minha finada vó.
Para começar cozinhe um pedaço de coxão mole (limpo, limpo, limpo) na pressão, não sem antes temperá-lo com sal e pimenta moídos e selá-lo no azeite. Depois, é só acrescentar um tantinho de água e umas folhas de louro e cozinhar até que ele esteja macio a ponto de ser desfiado com as mãos.
Cozinhe também o feijão de corda - rapidamente, porque ele tem que estar firme - escorra, deixe esfriar e depois tempere com cebola picada, shoyu, pimenta dedo de moça, vinagre de arroz, azeite e chimichurri. Juntei a carne desfiada, cenoura ralada, muita salsinha e cheiro verde e foi!
Eu usei o coxão mole pois era o que eu tinha disponível, mas fica perfeito com fraldinha ou também com lagarto. O feijão de corda também pode ser substituído por lentilha, grão de bico, fava, feijão branco. Os grãos são amigos das saladas, vai por mim, moçada!
E para degustar nossa salada de feijão, que tal essa meta-poesia:
João Cabral de Melo Neto (Catar Feijão)
1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

